5 May 2013

Todo corno merece o chifre que tem.

  Eu vi a tua mão tremendo. Não adiantou tentar disfarçar. O teu pseudo-desespero ao me ver era altamente perceptível. E eu compreendo o porquê. Minhas palavras naquela noite não foram as mais agradáveis, eu sei. Só não esperava que você não compreendesse. Acho que ninguém realmente compreende, afinal.

  É, a verdade é que você é mais sensível do que eu achava que seria. E eu peço perdão por não saber lidar com isso, até mesmo porque eu também sou assim. Eu pelo menos corri atrás, coisa que você não é capaz de fazer. Meio triste isso, não acha?

  Eu não tinha certeza se você me deixaria me aproximar novamente, mas não custava tentar. Obrigada por cuidar das minhas coisas enquanto eu estive ausente. Não sei se você chegou a compreender o que eu tinha feito aquela noite, mas acho que o sorriso em minha face e minha dificuldade em formular frases deixava tudo claro. É, eu não sei disfarçar. Nem precisava, na verdade. Eu sei que você se sentia feliz por eu estar feliz.

  Peço perdão por não saber muito bem o que falar. Eu sou uma boa pessoa, eu juro. Eu só perdi o controle, e não esperava que você me perdoasse, nem mesmo que você me tratasse tão bem depois de tudo. Eu não tô pedindo uma segunda chance, cara, mas eu gostaria que você soubesse que eu seria muito feliz se pudesse te ter mais uma vez. 

  Saiba também que você é lindo. Mesmo.

28 Apr 2013

Era pra ser amor, mas foi selvagem.

  Não foi engraçado. Não mesmo. E mesmo assim a gente tava rindo. Era aquele tipo de situação em que você não tem nada mais a fazer, apenas limpar a bagunça e rir. Porque você sabe que depois você vai chorar. Muito. Eu não estava nervosa no momento, pois eu sabia que, dessa vez, eu teria que contar com outras pessoas para resolver os problemas. Honestamente, eu me senti um pouco deixada de lado. Apenas um figurante na cena. E por que não seria assim? Eu sei muito bem que eu era apenas uma testemunha.

  Mas por que dói tanto? A todo instante as memórias passam por minha mente e tudo que consigo fazer é controlar-me para não chorar. Não exatamente pelo contexto das imagens, mas o que realmente me incomoda é que eu me importo. As manchas de sangue seco por todo o chão não eram de qualquer pessoa. Eram d'Ele. E isso, caro leitor, é simplesmente perturbador.

  Foi há cerca de um mês que nos conhecemos. Foi quando o deixei pela primeira vez. Não que eu me arrependa de tê-lo deixado naquele dia, eu mal o conhecia. Honestamente não lembrava seu nome quando o encontrei de novo, apenas sua face. Não sei exatamente o porquê, mas eu nunca consegui esquecer aquele rosto. Reconheci-o na hora em que vi. Mesmo que Ele não lembrasse de mim, eu não me importava tanto. E foi aí que as coisas começaram a ficar bem. Acho que nunca esquecerei a sensação de passar a noite ao lado daquele corpo nu erradiando calor.

  Quando a manhã chegou, deixei-o pela segunda vez.

  O tempo passou e mesmo que meus pensamentos se concentrassem em um outro alguém, por vezes memórias daquela noite voltavam a minha mente. E antes que eu percebesse, eu estava naquele apartamento novamente. A intenção não era ficar, mas não resisti. Caí na tentação de dormir naquela mesma cama, sentindo o cheiro daquele perfume que eu já não conseguia esquecer.

  No outro dia, deixei-o uma terceira vez.

  Mais uma semana e eu já não suportava mais pensamentos voltados a coisas que acabavam por piorar a minha saúde mental. O plano era simplesmente observar a natureza enquanto o álcool fazia seu trabalho no organismo. Só que eu já sabia onde tudo isso iria acabar. Na mesma cama, óbviamente. Eu só não esperava estar sozinha desta vez.

  A noite estava agradável. Por que é que sempre tem um filho da puta para estragar tudo? E apesar de tudo, eu não sei muito bem o que houve. Ninguém sabe. O nível de álcool em nosso sangue já era o bastante para que não tivéssemos certeza de nada. Ele me carregou até a cama - ah! aquela cama! -, coisa que jamais tinha acontecido comigo. Deixou-me sozinha no quarto escuro por alguns momentos e eu não tinha certeza do que Ele queria fazer. O apartamento era pequeno, do quarto eu podia ouvir o que acontecia na sala de estar. Escutei sua voz dirigindo-se ao outro garoto presente e o pouco que consegui compreender era algo sobre abrir alguma coisa. Por um instante eu achei que estava tentando abrir uma garrafa de vinho, o que faria muito sentido. Estávamos todos bêbados, de fato, mas havia espaço para mais. Foi aí que eu ouvi o barulho.

  Grande. Algo muito grande tinha caído. E eu não tinha ideia do que poderia ser. Por um segundo fiquei paralisada na cama, esperando para ver se ouvia mais alguma coisa. E nada. Pulei da cama e saí correndo, honestamente esperando encontrar algo quebrado no chão e os dois limpando a bagunça. Mas tudo que vi foi aquele rosto - aquele mesmo que eu tanto gosto - coberto de sangue. O que diabos eu deveria fazer?! O desespero tomou conta de uma parte de mim, enquanto a outra conseguia manter a calma. Gritei pelo nome do outro morador do apartamento. Nós tentamos estancar o sangramento, sem sucesso. O levamos até o banheiro, depois até o quarto, procuramos por algo para amarrar em sua cabeça e no fim acabamos espalhando sangue por todos os cômodos. A verdade é que o corte era muito fundo. Olhando pela janela, podia-se ver o outro garoto caído no chão, como se tivesse pulado para fora. Mas a janela estava fechada e inteira. Não havia um caco de vidro no chão.

  Poucos minutos após a ligação, a polícia chegou. O garoto caído do lado de fora havia desaparecido. Haviam câmeras e faixas por todo lado. Fomos encaminhados para a delegacia mais próxima. Enquanto isso meu coração não se acalmava, pensando se Ele estava bem, se tinha ido ao pronto socorro, ou o que os outros policiais fizeram com Ele. Após duas horas prestando depoimento, nós, as testemunhas, deixamos a delegacia às 6 da manhã. Já que o apartamento não era longe, caminhamos até o local. O sangue no chão de todos os cômodos já estava seco. Passamos bons momentos tirando toda aquela tinta vermelha do chão, do banheiro, da máquina de lavar, e ainda haviam muitas toalhas e peças de roupa completamente vermelhas. Precisei lavar meus braços, que também estavam cobertos de sangue. Dirigi-me ao quarto.

  Então caiu a ficha. Dessa vez eu estava sozinha naquele cômodo. O cheiro na cama não vinha mais d'Ele, mas sim do fato de que Ele esteve lá horas antes, deixando o perfume impregnar no lençol. O calor agora vinha apenas das cobertas, e não mais daquele corpo que eu tanto gostava de sentir em contato com o meu.

  Eu, que o havia deixado tantas vezes antes, fui deixada.

  Adormeci.

28 Mar 2013

Holy Wednesday.

  I was trying to remember what happened last night, but then I noticed that nothing really happened. I just went to a bar somewhere downtown. Great music, nice people, hot guys everywhere. Beer after beer after beer. My phone was ringing and I told them to fuck off. And beer after beer after beer.

  It was late and we were running without direction. No one gave a fuck. He was telling us to relax, but she almost broke her ankle. It was blue and she was complaining about the pain. We kept on. Running and running and screaming and laughing. It was cold, but the warmth of our hearts could keep us alive. We could see the city down there, a lot of lights sparkling, contrasting with the doomed dark sky. We were three shadows running through the neighbourhood, screaming and laughing, but no one was disturbed. We passed through the little fence and the ice made us fall and her ankle started to hurt again.

  It was a big house, in fact. We went upstairs and found lots of beer cans and some guys talking bullshit that we couldn't really understand. I remember it was almost 3 in the morning and we were so lucky 'cause we made it somewhere warm before the dawn.

  I remember a shower, candles and blood.

  I woke up in the sofa. Searched for people in the house, but I didn't really find someone. I went downstairs, passed through the door and walked to the bus stop. It was eight in the morning. No goodbyes, no hugs, no kisses. Emptiness.